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quarta-feira, 6 de abril de 2011

à k, ao mano, aos que comigo lutam, à flor e a outras riquezas

a luta não se faz berrando, agitando na noite as águas lamacentas, batendo ou magoando a alma nos espinhos da flor. a rosa não deixa de ser rosa e age enquanto rosa. os espinhos não deixam de ser espinhos por menos martirizarem a alma de quem os segura sangrando o doce amor divino.

derruba a escuridão essas massivas paredes de pedra para espalhar o caos nos pátios e jazigos milenares? não encerra o orlado ferro retorcido da retranca a escuridão e não sou eu pequena capela de portão escancarado à espera do teatral insolente?

o verbo é "fluir"... o rio não luta contra a pedra no seu leito, ainda assim não se acomoda na passagem e verte no mar... o salmão quando o sobe não afasta as pedras do seu caminho, antes as usa para avançar... a pedra, o rio e o peixe são três numa só natureza.

então quando te falo em luta, é a isto que me refiro. uma luta de fluir, uma luta de abraços e amores onde a carga são flores e o sangue, luz. onde a face está livre para se dar, e o estalo é abraçado, morrendo o provatório arremesso na união das forças. sossega querido irmão, que este teu anjo está, ainda que cansado, tranquilo na natureza que tem. que os valores que suporta no granito cruzado que abraça, não o deixam cair fora do campo de batalha que escolheu para percorrer até ao pai... e que os teus fios de ouro me são tanto na vida como serão quando padeça, fios de ouro que me prendem aqui.

e na minha tumular inscrição que se leia com tardio sorriso: "a elevação da luta reflecte a humildade de ti."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

terceiro fôlego

já cá não trago há muito tempo, os vapores que vêm da cozinha e que me atestam pleno o estômago. teimo em afastar a cruel densidade deste fórum, mas não deve ela deixar de existir, por contraponto à leveza da alma, e assim devolvo à gula o seu tão estimado lugar.

esquecido o portão do jardim por época do solstício de inverno, dado ao fado intemporal do terminar das lides profissionais que quis o pai sol que durem sempre os mesmos 365 chatos tempos, relembro fôlego necessário para que se arranque esta betoneira enfastiada de menos nobres idas diárias à mesa vazias de apetites, para que logo me apareça meu exaltado irmão, por entre tachos e suores, acepipes e refugados, e comigo na lembrança [se calhar por lhe presentear alguns néctares vínicos e por vias de irmandade sanguínea e lumínica que por sua escolha fez aliar...] e se me apresenta na frente o passadiço de iguarias por ele preparadas, e por sua mesma ordem, nefastamente divulgadas em rede social, onde preside a um harém de comensais amigos, para gáudio de uns, e para inveja de muitos. dirá a macilenta estirpe que a gula, pesará mais na alma pecadora que no corpo vão... que direi eu que acho plena a ideia que alma sem corpo não aprende, e que corpo sem alma não existe.

passaram-se dias de abandono, sentados demoradamente à mesa, bebericando suavemente, fazendo nascer luz a cada ideia tida, a cada sentimento expresso. cabe à gula a união de quantos sentados à mesa reforçavam a alma, o conhecimento e o carinho que vai jorrando no caminho comum. assim se alcança deus, vivendo o sangue com o que ele nos dá: luz.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

catarse


decoro que o prazer de cada teste descarado, não está na consequência mas na partilha da batalha com quem me empresta o sangue. escolhi há muito quem comigo desfere cada contra golpe ao destino; quem me lava a cara após cada derrota; quem me encosta o ombro para que, desfalecendo, recupere o fôlego; quem me estanca o sangue na ferida aberta com o sal das lágrimas que por mim abandona.

irmão, não mais brindes a essa engomadeira tola na janela, que nada apreciando além da morte, nada sabe do que abandona no sumiço horizonte que se esfuma na calçada que lhe passa no beiral. não mais és iniciático, porque te baptizo de valoroso, e como pedro lava os pés a quem o serve, estendo eu a parca luz que me guia ao teu caminho para que te seja brando; que como outrora te tratei, me tratas agora tu. e que sob nossa senhora és agora verdadeira pedra de catedral onde me repousam os joelhos; que o mapa das minhas feridas seja teu para que me lembre sempre de ser verdade contigo.

serves sem busca de proveito, as há negras buscando o proveito servem sem se querer despojar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

responsabilidade acrescida imerecida



na próxima vez que alguém me perguntar o que quero para os meus anos...
na próxima vez que alguém me perguntar porque rezo...
na próxima vez que alguém me perguntar por quem sofro...
na próxima vez que alguém me perguntar quem me indica o caminho...
na próxima vez que alguém me perguntar quem me aligeira a cruz...

"sangue do meu"


Querido Mano,

Aproxima-se a grande data em que vieste da Luz.
Em que a Mãe e o Pai te deram a Luz.
E que escuridão seria a minha vida sem ti.
Nasceste da luz e iluminas.
Que sejas sempre iluminado e que ilumines sempre.

Hás-de arranjar um espacinho para jantarmos todos lá em casa para celebrar essa grande data.

A ti te devo respeito e obediência. É este o dever de um irmão mais novo, e assim será.

Mano novo

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

carta aberta a meu irmão valoroso


que deus me ajude a manter-me fiel ao sangue que me deu. que vai podre esse outro que ferve pelo vil metal ou ainda aquele que coalha esquecido das suas raizes. juntos até ao final sob nossa senhora

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

segundo fôlego


sabes amado, quando o vulto se obriga a elevar, e se desprende das mordaças diárias, ruma mais uma volta à gula, depois de martirizar por mais uma semana, ao invertido convés da "canastra do fidalgo", poiso recorrente das datas nobres e soalheiras desta vida — bastião do lambareiro corpanzil —, momentos parcos de celsitude, ultrapassada que foi mais uma prova — um novo começo quem sabe. poderia o poiso ser outro, mas não deparo além melhor qual me acerque de quem já partiu, pelo cheiro do mar, e me relembre o esforço de cada passo. o fresco da peixaria e a alegria dos comensais ajuda no desprezar das gentes interesseiras que palpitam por mim.

este beco onde me encontro arejou por breves momentos, os ares da ria reformam o semblante, e o pai aviva a fé. o pecado é partilhado com a flor. abre-se uma garrafa. partilha-se uma sopinha de peixe que marca a circunstância. aligeiram-se os ambientes. desta feita, o recato de cada canto ajuda a abordar cada assunto e dei as costas ao enorme caranguejo feliz de simpatia que via adiado o seu fado mais um dia.

não pode teu irmão desbravar paragens de invídia sem o corpo farto, a alma reforçada e expiação quanta necessária para merecer o perdão de cada queda. fica com deus, que entendes melhor o que é daqui e enquadras a cada contacto com a fé, a minha má sorte.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

cuidados da alma


independente do repasto, fica a alma refeita dos martírios diários quando me sento à mesa com meu amado irmão. nobres horas de comunhão que se estendem noite fora, no desprendimento de ambos deste mundo, para entendimento literário e vivencial, que se sobre-eleva à mundanidade corriqueira e monótona a que o pai me sujeita diariamente como jugo. ganho mais eu nas parcas horas da noite do que em anos de vida intelectual solitária. o que transcende o relacionamento deste globo ainda não sei, mas depreende-se sobre a mesa, que à elevação das almas ao jardim florido, escaparemos os dois à longuidão do tempo e levaremos à presença do pai uma união florida de cores e afectos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

a verdade no silêncio da noite


veio uma borboleta, translúcida e tão leve, às grades do portão e saiu. traz uma fé renovada na felicidade que lá se encerra. deixa-me uma paz, uma vontade de espera, um vislumbre do futuro. já não é pessoa, é muito mais que isso, é beleza que não se vê. na onda de energia em que veio a borboleta, repouso a emoção de me tornar parte daquele jardim. o tempo só altera os seus tramites pela força do silêncio.

obrigado irmão, foi por ti há anos que a borboleta se conheceu, onde a luz é mais linda, onde a calma mais intensa, onde anos de sofrimento abrem os portões à verdadeira vida. a ti te devo este sinal, ao jardim florido devo a vontade de lá retornar. uma benção maior não poderia eu ter.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

tributo à luz — à frente alumiando ainda ténue



amado irmão, deixo-te esta pequena nota de intenção futura, para exemplo de catequese, lavrada por minha mão, vivenciada por minha alma:

cuida aquele gato espumoso que lhe faria frente às ideias aparentemente felinas de conquista espiritual. mas além de me armar de vassoura, luto ombro a ombro com amigos que mais vêem que gatos e banalidades de má índole. dou a outra face. saio de cena.
a esses irmãos, corajosos aliados de luz, vergo a alma após cada batalha ganha. não sou merecedor da sua existência a cada embate, mas com eles aprendo a manejar a minha valiosa vassoura. um dia ela voará quando meu coração sentir o doce sabor da humildade.


teimam em não desistir de mim... e eu, por deus, não abro mão deles.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

senão chá

Cesário Verde abordava sempre a dicotomia campo/cidade...sendo que eu vejo o campo como o paraíso e a cidade como o inferno...

Vou ver se te arranjo uns textos...



Foram alguns anos mergulhados na literatura...ficam-me estes pequenos apontamentos na memória desse tempo altivo em que a alma se levitava do corpo e errava pelas letras dos autores portugueses...
Hoje a imaginação destes autores pode ser muita, mas o português escrito acabou com Camilo Castelo Branco. Às vezes quando nos apetece um café expresso bem forte não temos senão chá. Mano Saudosista

Cuida meu irmão do meu ambiente literal, por falta minha.
Noto que o sumo que lhe fica, tal como a mim, retrata o afastamento existente do verdadeiro sentir da vida.
Sei contudo quem o guie... a par da sua literatura, está bem entregue.

terça-feira, 16 de junho de 2009

quando a flor cresce


pede o corpo, expurgado do seu fado para estes dias, que se alimente em abundância para que continue a luta, para que identifique cada teste deste globo, e que o faça passar.
alia-se o pecado à força divina que verga o ser e rumo às areias divisas da ria do mar, para a exaltação da vida, pensamento ao alto, um agradecimento fortuito de mais um exame de consciência.
queimava há muito o sol as águas do mar quando me apresento, florido, às portas do "canastra do fidalgo". entra-se num céu pequeno de velas triangulares por nós inventadas — não te lembras, nem eu, que ajudei noutras vidas a salgar este mar que me banha e repousa o olhar e do qual me apartarei não tardará muito — mesas que investem na proximidades das almas, algumas já embriagadas, outras das terras altas dos nossos seculares bélicos aliados, e de um tecto meio abobadado alusivo decerto ao convés da embarcação que nos acompanha por todo o repasto de pernas para o ar.
no fundo da garrafa de planalto lembro os olhos azuis da tua avó — incansável orientadora —, os valentes tragos do teu avô neves, e os teus anjos. abraçam todos em torno da volta da mesa. eleva-se a razão da reunião a mais um ano passado da flor que trago num vazo ornado. tenho que a proteger da geada da vida, apesar dos gritos silvestres que faz ecoar, não passa de uma japoneira.
sabes ainda irmão, a gula, com sentido divino, não deverá pesar no último tribunal, pesará mais a saudade que trago pelos teus e da demais, por ti.
que deus nos abençoe a todos a cada passo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

maresia adiada


amado irmão, vou afastando da ilusão estes sonhos.
sonhei para a vida, mas ensinaram-me que é a vida ela própria que sonha para nós. e a minha, apesar de afagada por elevados gestos como o teu, tem vindo a desprender-me do que é daqui.
acho-me velho e cansado para regar os meus sonhos, combatendo os sonhos da minha vida.
mas tenho vantagem nisto... dedico-me ao sentir dos que familiarmente me rodeiam, sendo para esses as forças que vão restando, que são ao mesmo tempo alento e fonte de vida. dedico-me ainda a sentir o mesmo vento salgado, navegando apenas num par de chinelos de praia, evitando fundear o corpo nos baixios da querida ria elevando a alma ao seu berço.

ainda assim obrigado pela lembrança, queira deus um destes dias que, velhotes, naveguemos nas marolas da ria... e se for eu pilotando, fica prometido que será num bote de nome "El Rei D. Manuel II".

quarta-feira, 8 de abril de 2009

à janela



na imensidão das perguntas que como pipocas saltam projectadas no vazio,
sinto-me carregado com o desespero de não poder ajudar quem mais amo na vida.
valem-me estas lágrimas que bombardeiam a cruz que trago nas mãos.
regam esse amor transcendente, desculpam a humanidade temporária da alma.
grito "vem por aqui, olha a janela aberta ao infinito do tempo".
o eco traz-me o silencio abafado pelos olhares incrédulos.
sinto-me sozinho naquela janela, carregando o desespero.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

since 1974

as coisas que digo ao mano nos dias incógnitos ao longo dos lentos anos que nos levam ao pai, têm um peso que me vai elevando a alma.
nele as coisas boas mundanas concretizam-se para nossa felicidade e vão enxugando as lágrimas que me gelam a cara.
no dia de hoje, repetido desde que nasceu, o carinho que por ele me aquece a alma, aumenta.
é por ser meu irmão? se por outro, fosse ele mesmo, abraçaria da mesma maneira aquela farta barriga. tenho mais sorte que isso, se por outro fosse, porque na verdade é meu irmão.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sobre p


os murros no sentir de irmão que me mandas são por demais bem vindos a este teu servo.
quando lá por fora se mantém um crepúsculo divino, olho numa simples frase a capacidade que tens em me tornar algo que não penso ser... especial.
isto passa a força do sangue, a quietude crepuscular, passa mesmo além da benção divina; será seguramente perpetuada no céu quando lá chegar, e na terra enquanto sofrer.
rasgo somente um "obrigado irmão por o seres tanto".

terça-feira, 21 de outubro de 2008

reflexo na rosa


é na falta de palavras que encontro o que sinto quando, pele sobre osso, vejo a fragilidade de um anjo caído na terra.
penso que veio ensinar-me a chorar. por olhar para ele penso no que já andei.
por sonhar com quem o viu ainda anjo penso no que ainda tenho de andar.
deixo de tentar conseguir justificação para os espinhos destas rosas que abraço.
agora tenho-as como minhas, e a cada espinho acarinho como se meu fosse.
não me calharam bem-me-queres, mas rosas.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

há abraços pequeninos que valem o mundo



é ridículo de tão simples o segredo de conseguir dar um passo em frente todas as manhãs encarando a vida nos olhos.
toureado pelo mundo, sangrando do cachaço, cansado pelo peso de mim, escuto ao longe.
um longo e apertado abraço vindo de surpresa, fazendo-se só anunciar pelo ecoar de uns passinhos frenéticos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

carta aos meus irmãos


vi hoje de relance um anjo de casaco azul
lindo, pequenino, assustado
mas era um anjo

passeava atento no passeio
olhava para cima, procurava a mãe

revejo-me naquele anjo
lindo, pequenino, assustado

vai ali, pequeno, no inicio da sua jornada
em direcção ao Pai,
olhava para cima, procurava a mãe

revejo-me naquele anjo
na luz que traz consigo,
que o afasta de todos, tremendo

o seu coração puro traz saudades
rezo por ele na noite escura
que Deus lhe facilite a estrada
que Deus lhe dê força para a percorrer
que Deus o guie por este inferno

vi hoje de relance um anjo de casaco azul
hoje vi o afonso.

mano velho

quinta-feira, 19 de junho de 2008

carta ao meu irmão

castigando o corpo depois de mais um dia no caos da criatividade, rumo, a convite de grande amiga, a terras de lá da ria.
é bela ao final do dia, pelas cores reflectidas na sua água, pela maresia e pela sensação de estar longe do que é normal.
o corpo quebrado esquece as maleitas das horas infindas de prisão. a mente fluida propaga agradecimentos sagrados.
ao escurecer chegamos ao restaurante "a peixaria", não fosse conhecimento prévio de quem lá me levou [pouco me faria imaginar que ali tivesse nascido tremenda petisqueira] ficariam por chorar uns chocos com tinta passados na brasa e devidamente regados a "ervideira" fresco que, por estar dentro da camisa de gelo nem deixei ver o rótulo e que corta um travo de molho verde.
a frescura do peixe, exaltada no crepitar do carvão incandescente quando lhe cai o sal em cima, dá laivos de prazer pecaminoso sofrendo no inferno do braseiro. ainda assim vence a entrada no restaurante quase pela cozinha. quase porteiro está aquele diabo cozinheiro atiçando as brasas, logo ali se trava amizade quer com peixes e carnes, quer com o mestre atiçador. logo ali se escolhe o repasto.
pequei irmão... pequei. sabes-me adepto do fritos. os chocos foram encomendados com batatinhas fritas que vieram por segunda vez, quando daqueles chocos me apartei para abraçar umas lulas.
em nota de roda-pé atiro-te o leão sportinguista que guarda bravo a saída, ainda que calmo por ser de gesso ou por ali no céu de deus morar, com uma pata na ria e olhar no marítimo por-do-sol.