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segunda-feira, 16 de maio de 2011

"tragos"

desligam-se os monogâmicos candelabros,
cobrem-se os velhos cadeirões com rotos lençóis bordados,
e fecham-se as sacadas do salão,
as festas terminaram, o circo acabou, a pirataria recolhe.

o retorcido baile de máscaras
onde nada do que foi, continuá a ser.
onde as comadres que se alongam,
cuscam agarradas a uma vela acesa
lambuzando-se nos últimos nacos de bolo.
de ar serio, sentadas no canto da mesa
perdem o sentido último da cena que perpetuam.
comentam baixinho... "ali vai ele, aquele malandro".

o som dos instrumentos que se guardam,
o fumo dos seus mestres, dão a cadência
enquanto abalo de soslaio da boca de cena
cabisbaixo, de sorriso maroto nos lábios.
de passo seguro deixo o copo à menina dos casacos
que me acompanha à sonora porta faustosa, entalhada,
para me entregar ao pequeno anjo de cabelo carregado.
lindo, de sorriso aberto, pega-me e destapa-me.
e acolhe-me as distendidas asas brancas...

é a luz do dia que retoma, afoita, mais uma batalha,
é sempre assim quando morre um sonho,
uma porta aberta para voltar à luz.
saber do velho portão, ainda que retraído, ferrugento
que deixa escapar um fresco ar que aviva o olfato,
é benção; é força em mim; é mundo mais uns tempos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

esse colar são cardos na alma

de que serve a solidão se não te salva?
ou o meu amor se não te redime?

de que serve esta cruz toda,
se não me pendura?

de que servem estas atiradas lágrimas,
se não te perdoam;
ou esta imensa dor,
se não me fina?

de que serve tudo?
se o caminho não passa,
nem o tempo termina?

fosse eu deus e percebia, perdoando.
não sendo perdoo sem perceber.

porque do alto desta cruz,
encurta-se o caminho
que de tanto o abraçar
se confunde comigo,
a cada colhida encaixada,
a cada membro perdido.

que do amor sabe deus,
e do vazio choro eu,
nas noites que me habitam.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

à k, ao mano, aos que comigo lutam, à flor e a outras riquezas

a luta não se faz berrando, agitando na noite as águas lamacentas, batendo ou magoando a alma nos espinhos da flor. a rosa não deixa de ser rosa e age enquanto rosa. os espinhos não deixam de ser espinhos por menos martirizarem a alma de quem os segura sangrando o doce amor divino.

derruba a escuridão essas massivas paredes de pedra para espalhar o caos nos pátios e jazigos milenares? não encerra o orlado ferro retorcido da retranca a escuridão e não sou eu pequena capela de portão escancarado à espera do teatral insolente?

o verbo é "fluir"... o rio não luta contra a pedra no seu leito, ainda assim não se acomoda na passagem e verte no mar... o salmão quando o sobe não afasta as pedras do seu caminho, antes as usa para avançar... a pedra, o rio e o peixe são três numa só natureza.

então quando te falo em luta, é a isto que me refiro. uma luta de fluir, uma luta de abraços e amores onde a carga são flores e o sangue, luz. onde a face está livre para se dar, e o estalo é abraçado, morrendo o provatório arremesso na união das forças. sossega querido irmão, que este teu anjo está, ainda que cansado, tranquilo na natureza que tem. que os valores que suporta no granito cruzado que abraça, não o deixam cair fora do campo de batalha que escolheu para percorrer até ao pai... e que os teus fios de ouro me são tanto na vida como serão quando padeça, fios de ouro que me prendem aqui.

e na minha tumular inscrição que se leia com tardio sorriso: "a elevação da luta reflecte a humildade de ti."

segunda-feira, 21 de março de 2011

sacrificium deo spiritus contribulatus

há luzes que me escolheram
sendo eu parco na claridade, desmerecendo,
amam-me e recolhem-me, instigam-me.
carregam-me, arredando os espinhos da rosa.

saltitam cegando, são já alguns,
eu em cruz deitado no chão frio das suas capelas,
beijando o chão lavado pelas suas lágrimas,
de partida, de solidão, de entrega, de trabalho.

há amores que me acolheram sem que o soubesse
de olhos azuis, de castigado corpo curvado.
sou riqueza nada valendo.
sou luz nada alumiando.
é-me tudo, eu nada sendo.

há ensanguentadas leituras,
que em cálices guardam cada gota de tristeza.
que a cada golpe colhido,
forasteiros que me envenenam o caminho
tragos de fel bebidos com sorriso,
croa de espinhos abraçada, sangrando.

a todos eles sirvo o melhor que posso,
assim me ajude o pai
que nada mais sou que uma oferta no seu altar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

clamor peccator

não quis deus que lá ficasse. mas que me embrulhasse ainda neste mundo que carrego nos ombros, farto em mentiras e desses laicos grilhões que se pavoneiam em toscos pulinhos narcisistas. teimo em procurar nas águas de rendas brancas espumadas o fim que tarda. sabes laura, bem sei que a ria é tua para passear... mas o mar toca no céu que almejo. e seria a praia o meu depósito terreno testamentário de vestes vermelhuscas e companhias saloias... que quem em mim faz verdade, seguir-me-ia para fora da palpável gaia, para essa outra que me segreda nas noites em que a lua me faz companhia e agasalho terno. mas cabe-me ainda sentar ao portão ferroso que te venho dando nota... proíbe-me o pai, que ainda não te reveja os verdes olhos, lindos que tanto sofreram... tolito pai... ele sabe, e deixa, que tos veja sempre que quero, pois foi ele que colou, no triste coração que enclausuro, o éden solarengo onde passas tanto para me abrigar do alongar do tempo e que quero acreditar ser teu paraíso... que noutro local não te imagino. sabes?… é que o amor que tenho por todos só se faz luz no amor que todos têm por mim. cuida de flor, para que ela cuide de mim, que o estimado corpanzil quebra sob o fardo que agora sei que se alonga mais uma época. exulta-se a cada gota salgada que cai em ferida em clamor ao pai, levando quem se pode ao colo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

para onde olhas à noite

"muitos de nós dizem que têm muita fé, mas o que muitos de nós têm é uma grande fezada."

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

gostava de ser deus,

para entender... porque nos aparecem estes pequenos anjos para logo voltarem ao céu. adeus pequenita, um destes dias, faz-me um desenho e manda-mo numa folha de outono.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

protelado climactério



redobro o esforço anaeróbico para mais um ano de provação. no degrau que dá elevação ao jardim florido, continuo sentado e a noite acaricia de pedante sentimentalismo quem por mim passa, esquecido e recostado no velho portão ferrugento. teima o avelhentado não se abrir para mim... "que levo ainda cheio o cabaz de ego" e que "os dourados grilhões de subtil peso, não são ainda gastos pela cruz"... essa que sustento na carne e me obriga ao confronto em mim. contudo é redobrado o esforço para que se siga em contemplação, quer da eminente luz que me encanta, quer da densa comiseração diária do triste sonho que se vive... dando um, encanto e flores ao outro. salvo quando se me põe a prova na frente... passando do encanto ao desabono e enfraquecimento da fé. ainda assim, quando menos a fé me salva, mais em deus procuro o calor do seu manto... e quanto mais quente estou, mais a mim me encontro. porque não é ele que está perdido, mas eu cego. ora, o portão ainda cá está, o jardim ainda ali floresce, a noite ainda me alcança, laura não me deixou... tudo para mais um ano de caminho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

hoje somos flores

cristo no primeiro milagre que realizou, de água transformou vinho. pedro recebeu deste mundo tudo o que ele apresenta. faz hoje um ano que ele nos deixou fisicamente... hoje pedro é flores e exemplo de vida, e exemplo de morte. viveu intensamente este globo, para o bem e para o mal, foi pessoa. viveu ricamente o mundo onde se destinou partilhar vivências, estilos, pecados, caminhos. fica a saudade de quem, ao contrário de mim, achou como sobreviver este mundo. hoje pedro é flores. continua vivo e aguerrido como sempre fora. pedro hoje é flores. um destes dias recebe-me com esse vozeirão com que deixava ecoar as ondas da força natural que lhe fora dada... quando achou que fora o suficiente, deixou-nos fisicamente para nos acompanhar espiritualmente... a ele deixo a minha vontade de ir vivendo com as amarras que nos coloca a vida. foi essa a lição que me deixou, saber apreender do globo em que existimos em conjunto, as bonanças que nos são deixadas. avô, sei que não me esquecerás e que o que compartilhámos ficará para sempre nos nossos corações. obrigado por ainda comigo te preocupares... fica descansado... esta luta é para mim... um destes dias verás... fumaremos tabaco no por do sol, trocando histórias de vida... umas pecando outras pecando ainda... agora que és luz, encaminha o meu passo no caminho. pedro hoje é flores.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

salmos 51



compreendo agora que pago. não me quebram os ossos, tão pouco a alma, mas sigo pagando. desmontando esse esquife que, feia oferta, deixo enterrado no lamaçal. deixo-o para trás e vou pagando. não há queixume que me atormente nesta aurora que o horizonte me deslinda. eu sou o que a terra engole e sou o que a terra liberta. não me quebram os ossos porque já não sou só pó, não me falha a alma porque já não me aprisiona, é luz. não se negam, essa terra e esse céu, sem um não há outro… sem sangue não há luz, sem luz não corre o sangue. a cada dor um passo em frente. a cada noite oca, um por do sol soberbo. porque teimas em não me acompanhar?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

as fontes no caminho


a ausência, alheia ao passo, saltita tolamente entre o que deve e o que não faz. cega de tanto querer, nada vê. salta tolamente, sorvendo toscamente o insalubre de quem nada lhe é, fechando as portas a quem com ela, tolamente, se ajoelhou. apoia-se no fardo da normalidade, nega quem lhe abra os olhos. carrega o fardo de não ser totalmente pois não vê. tolamente diz ter razão e chapinha de barriguinha na sua triste fonte como quem se acha o centro do que queria ser. não quer ver que sua fonte só vomita lama. cega de tanto querer, nada vê.

a presença, só pede força, até que o pôr-do-sol finalmente chegue, para um final sorriso de conquista.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

um anjo alonga a espera


um dia teria dito: "sabes, sonhei tanto contigo... correndo endiabrada." mas quis este fado que assim não desse comigo, adiando perdi essa princesa. queira ela aparecer e por deus levantarei em ombros a galáxia. mas adiando, perdi essa princesa... ela não sabe a falta que faz... um destes dias, perdido, confiarei nela para me devolver à luz, lá onde ainda anjo alonga a vontade de me acarinhar a face.

amo-te linda princesa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

saudade



diz a essas gaivotas que choro por não estar perto delas
diz-lhes que são tão mais livres que eu
diz-lhes ainda que um dia ganharei asas
então conhecerei o que ora busco:
o gaia sob mim, longe e distorcida.

diz a essas gaivotas que choro no regaço de quem as ampara
diz-lhes que não falta tanto para me acolherem no seu bando
diz-lhes ainda que sou feliz por saber delas
então esquecerei o que ora me pesa:
o gaia sobre mim, longe e distorcida.

diz a essas gaivotas que levem a minha saudade,
aos teus olhos verdes de ria, de mar, de mim.

[muito agradeço a foto cedida pelo incógnito amigo de inês]

sexta-feira, 26 de março de 2010

céu à beira-mar



sabes?... estarei cá para ti. colhendo eu muito mais do que mereço, do teu regaço.
sabes?... há laços que não morrem. o nosso nunca parecerá.
sabes?... amores que se sentem. e são sangue vivo.
sabes?... conheces melhor. tanto ainda ensinas.
sabes?... descobriste o não-tempo. iluminas a minha eternidade.
sabes quanto te amo?

acolhe-me sempre!... e eu estarei sempre cá para ti.

segunda-feira, 15 de março de 2010

sorvedouro



o meu lugar neste sepulcro escuro afunda a profundidade do meu polido esquife:

a noite colhe-me acordado uma e outra vez, turvo de pensamentos obstinados, louco de rancor. desgarrado uma outra vez, e ainda. esse semblante mascarado de felicidade não mais me enganará. a sombra da falsidade abraça-me com o doce perfume da amargura. não me pesa mais o clamor do meu anjo, que não se faz ouvir, afogado em tantas lágrimas perdidas... desvanece tão lentamente esta minha centelha... demasiadamente vagarosa, arrasta-se aqui sem propósito, solidão enterrada no tempo que se vai penosamente arrastando.


continua essa abandonada alma, esquecida, sozinha, fria:

um destes dias chegarás ao triste desfecho, que tudo o que me agonias me deixa ainda mais só... envolto em fumos e de copo na mão, exalto em vão o corpo fustigado. flutuam pedaços de ti em memórias distantes, esses choros que me segredas baixinho à alma, já que o corpo, esse, perde força de viver. quão quente estás a preto e branco dentro deste copo! quão fria te vais afastando da outrora tua protectora. proteges antes os teus vivos que os teus mortos, precisando tão mais estes, penosos passados em juízo, definham na eternidade de um raso buraco. e com isto eu aprendi a ver as cores com que te engalanas. tratarão um dia do teu vulto como a tratas agora. pesar, dei eu na sombra de uma cruz. tu? nada. um dia também tu repousarás na prateleira do esquecimento.

terça-feira, 9 de março de 2010

pain



as incertezas do ser vão matando tanto como a falta de silêncio no meu crescimento, afogam de tal maneira a alma nesta água fria e escura que dor maior não senti ainda. a dor da incerteza corrói por dentro a réstia de força que ainda me basta para me adiantar por aqui. perdido, afundo neste escoadouro citadino, tentando manter as aparências, jogando com sorrisos forçados, colhendo da vida mais uma chapada. o escuro a que habituei o olhar é polvilhado de fantasmas, vozes, dores. não sei reagir mais, assombrado por ti.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

olhos azuis de ria e de céu



sabes?...

assusta-me que te vás decisivamente e me deixes aqui atirado a mim mesmo, sentado no passeio no escuro. sei que não sou merecedor da proximidade da tua luz, e que tens outros sítios para estar... ainda assim assusta-me a tua ausência.

sei que me virás visitar, de quando em vez, para me escorar, para me guarnecer a fé, para seres minha uma outra vez, afastando estas zoeiras da minha alma, projectando o calor do alto para que me sinta melhor nesta espera que encetei, faz agora trinta e nove anos. já tanto havias sofrido quando entrei na tua vida. e tanto mais sofreste.

deixo-te algumas linhas de amor, são poucas porque não te sei escrever, porque não te sei agradecer o quanto me deste. fica este tempo rematado com o sonho que tiveste num dia de lucidez. amor transformado em coisa. coisa que passa de mão, desmerecendo, nada fiz por tanto merecer. a herança que naturalmente de ti recebi há tanto, essa etérea que me importa, já a gozo um nadadinha, pouco quase nada... que ando ainda embrulhado no que um dia desprenderei. nesse luminoso dia, estremecerá o céu e a terra, quando as luzes se encontrarem, vagueará o silêncio mundano solto quando o pó descer à fossa donde veio. voltarás a ser quem sempre me norteou.

juras que um destes dias te verei?

a meu irmão agradeço por te partilhar.

sou teu, sempre.
adeus minha riqueza.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

estados tais de desamor



estado d'alma,

as luzes deste natal cegam ainda esses maltrapilhos que me embaraçam a vontade de te ajudar, mas nada posso, nada me deixam, a não ser que te recorde sozinho e te traga arrastada a mim nestes dias de festança pueril que passarás mais uma vez desgarrada. força! força que não tarda a permissão do pai que te alcance a mão e te puxe à luz. esquecem-te, esses, ainda engalanados de certezas e fantochadas. aí jazes atirada ao fundo, sumida da luz e do carinho que outrora que aqueceram. o que peço hoje em dias de natal, é que me perdoes por nada te ter conseguido. essa é a prenda que peço.


estado só,

que nos encontramos juntos na solidão.
que devemos olhar para nós
e encontrar a razão pelo que sofremos.
que nos devemos ver crescer.

não tenho a solução da tua noite.
só te posso mostrar o que alumia a minha.
é ténue essa minha luz.
é o parco reflexo da minha fé.


nestas alturas manda o pai, pela voz do mano, palavras de conforto para um novo ano. merecemos caminhar na luz... "procura o caminho com fé"

perdoa-me mas hoje não te darei esperança... mas raiva para lutar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

decessa epístola


sentado neste abismo, grito-lhe que me explique para que quer o destino o meu sorriso, se não o me devolve:

envolto no denso nevoeiro de suores, barulhos em surdina e testes de amor, não tive tempo para ver. não tive tempo para realmente te ver. o que com os olhos me ofusca não me aproveita, já porque te quero com o coração. o essencial é oco aos olhos e cheio à alma. vão caindo os panos em redor deste teatro que armaste para mim. onde dançam todos ataviados, eu apenas vejo!

mas agora estou só...
porque o que me ilumina, cega quem não me entende. porque a morte que me sobra, é-lhe vida adiada. porque ainda assim querendo, não sai do vazo que a confina.

vida? não tive senão saudades tuas.

obrigado K pela disponibilidade da foto.